Carrinho de compras
Loading

Definir metas realistas em cães com agressividade reactiva-impulsiva ou ansiosos

Ao contrário do treino de obediência, a modificação comportamental de cães que apresentam agressividade reactiva-impulsiva ou que são ansiosos requer uma abordagem cuidadosamente planeada, paciente e ampla, não esquecendo o seu estado emocional.


Estes comportamentos manifestam-se muitas vezes como uma resposta exagerada a estímulos, como por exemplo; ladrar, investir, comportamento de evitação ou comportamentos pacificadores. 

Definir objectivos realistas é fundamental para garantir uma constante melhoria a longo prazo, promover a confiança e a relação tutor-cão. 


Neste artigo exploro e recomendo estratégias simples, além de salientar a importância do progresso gradual.





reactivity, aggression, reactivivade, reatividade, cão reactivo, cão agressivo



O que é a agressividade reactiva-impulsiva?

É uma resposta comportamental exagerada na presença de determinados estímulos (pessoas, cães, ruídos, movimentos repentinos, entre outros) devido à incapacidade de o cão conseguir lidar com as emoções associadas (Abrantes, 2014). 

Esta resposta está na maioria das situações relacionada com a frustração, sobre-estimulação, medo e sobrecarga sensorial ambiental ou dor/desconforto. 


Muitas pessoas rotulam o cão de "reactivo" ou que está a ser “reactivo” (ladra, rosna, investe ou morde) no entanto, está demonstrar comportamento agressivo reactivo-impulsivo, diferente da agressividade instrumental, mas é comportamento agressivo por definição.

Pessoalmente, não gosto de rótulos e de 'labels', preferindo concentrar-me na raiz do 'problema' e na sua motivação e função.


Existem estudos que relacionam este comportamento a baixos níveis de serotonina no cérebro, a uma pobre socialização/imprinting, a experiências traumáticas, treino inadequado ou consequência do comportamento dos tutores.

Importante salientar que classificar todo o comportamento agressivo como reactivo-impulsivo pode ter consequências graves e que cada caso deve ser avaliado por um profissional qualificado. 


A ansiedade, por outro lado, é um estado de constante inquietação e alerta, que pode ou não estar relacionado com estímulos específicos. A maioria das vezes o cão não consegue relaxar, pode chorar, apresenta comportamentos destrutivos, "grooming" excessivo, entre outros.

A ansiedade de separação e a ansiedade generalizada são manifestações comuns hoje em dia, influenciadas pela genética, dor crónica, ambiente e experiências nos primeiros meses de vida (Overall, 2013). 





Porque é que a definição de objectivos é essencial?

Expectativas irrealistas podem levar a frustração tanto para o tutor como para o cão. A definição de objectivos atingíveis criam um sentimento de realização e consequentemente levam a um aumento de confiança, além da motivação do tutor a continuar com o plano de modificação comportamental (Blackwell et al., 2008). 


Pequenas metas mensuráveis são a fundação de um bom plano de modificação comportamental. Tentar alcançar muita coisa demasiado rápido pode levar a uma sobrecarga emocional que por sua vez leva a frustração e a retrocessos.

Por exemplo, esperar que um cão que ladra a pessoas estranhas se mantenha subitamente calmo num ambiente com demasiadas pessoas, ou onde já tem associações prévias é prepará-lo para o fracasso. Em vez disso, pequenos passos - como aprender a manter-se calmo à distância de um único estranho - aumentam a confiança e a resiliência.


Para definir objectivos e medir a evolução do comportamento podemos guiar-nos por algumas directrizes que nos ajudam a estruturar de forma eficaz um ‘plano de acção’:


  • Define de forma clara que comportamento pretendes modificar ou alcançar. Evita objectivos vagos como “corrigir a reactividade”. Em vez disso, define algo concreto, como “reduzir o ladrar quando passa outro cão”.
  • Assegura-te de que registas os progressos. Por exemplo, regista o número de comportamentos calmos durante cada passeio.
  • Foca-te em objectivos que abordam a causa principal ou que melhorem diretamente a qualidade de vida.
  • Estabelece um espaço de tempo para atingires um objetivo, de modo a manter a dinâmica e a consistência.



*Atenção que isto são apenas pequenos exemplos de algumas orientações. Existem muitos factores e antecedentes que vão influenciar o progresso. Mais uma vez o acompanhamento profissional é uma mais valia para uma evolução consistente do teu cão.*





dog training, educação canino, treino canino



Que pontos-chave uso nestes casos?

Tendo em conta que cada cão é único, irei mencionar 4 pontos-chave importantes na modificação comportamental destes casos.


  • Prioritizar a regulação emocional

Esta regulação é fundamental nestes casos. Exercícios que ajudam o cão a relaxar, proporcionar enriquecimento mental e ambiental, exercício físico, rotina consistente e previsibilidade influenciam o bem-estar geral do nosso cão e melhoram a aprendizagem (McGreevy et al., 2015).


  • Gestão ambiental

Estratégias de gestão ambiental são cruciais para prevenir que o cão repita o comportamento ao minimizar exposição desnecessárias aos estímulos. Podemos usar barreiras, evitar áreas demasiado movimentadas, passear em alturas do dia mais calmas ou noutros locais. Estas mudanças reduzem os níveis de stress e ansiedade durante todo o processo.


  • Competências básicas

Ensinar novos sinais e outras competências básicas, como a comunicação através da trela/guia, foco no tutor, entre outros, providencia ao cão alternativas naqueles contextos. Estas competências ajudam o cão a redirecionar o seu foco e na redução da sua ansiedade em determinadas situações (Yin, 2009).


  • Dessensibilização e contracondicionamento 

Ao fazer uma exposição gradual a uma intensidade baixa, e contracondicionamento vamos, além de modificar respostas emocionais, fazer uma associação positiva a seu tempo (Herron et al., 2009).




E os tutores?

Os tutores desempenham um papel fundamental na evolução do comportamento dos seus cães. Paciência, consistência e a regulação emocional são qualidades-chave para o sucesso!


No entanto tenta evitar estes erros que mais vejo:

  • Postura aversiva - gritar ou correções com a trela podem aumentar a ansiedade e prejudicar o ganho de confiança que estás a construir.
  • Exposição excessiva - apressar o processo pode sobrecarregar o cão e levar a retrocessos.
  • Inconsistência - sinais contraditórios podem confundir o teu cão e atrasar o progresso.


No entanto, celebra as pequenas vitórias!

A evolução nestes casos não é frequentemente linear e apresenta períodos de regressão seguidos de avanços positivos. Comemorar os pequenos comportamentos desejados aumenta a nossa confiança e motivação.



Trabalhar com cães que apresentam agressividade reactiva-impulsiva ou são ansiosos requer tempo, paciência e uma abordagem cientificamente fundamentada.

Ao compreender as causas que motivam o comportamento, ao definir objectivos realistas, ao utilizar as estratégias ideais e as competências fundamentais, vamos ter um progresso significativo!

E lembra-te, cada pequeno passo em frente é uma vitória que vale a pena celebrar.








Referências

  • Abrantes, R. (2014). Aggressive Behavior—Inheritance and Environment
  • Blackwell, E. J., Twells, C., Seawright, A., & Casey, R. A. (2008). The relationship between training methods and the occurrence of behavior problems, as reported by owners, in a population of domestic dogs. Journal of Veterinary Behavior, 3(5), 207-217.
  • Hiby, E. F., Rooney, N. J., & Bradshaw, J. W. S. (2004). Dog training methods: their use, effectiveness, and interaction with behavior and welfare. Animal Welfare, 13(1), 63-69.
  • Herron, M. E., Shofer, F. S., & Reisner, I. R. (2009). Survey of the use and outcome of confrontational and non-confrontational training methods in client-owned dogs showing undesired behaviors. Applied Animal Behaviour Science, 117(1-2), 47-54.
  • McGreevy, P., Bennett, P., & Foster, S. (2015). Dog behavior, evolution, and cognition. Current Biology, 25(19), R869-R883.
  • Overall, K. L. (2013). Manual of clinical behavioral medicine for dogs and cats. Elsevier Health Sciences.
  • Seksel, K. (2019). Early socialization and its importance in preventing behavior problems in dogs. Veterinary Clinics: Small Animal Practice, 49(3), 451-464.
  • Yin, S. (2009). Low-stress handling, restraint and behavior modification of dogs and cats. CattleDog Publishing.