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Cães com dor crónica: porque só controlar a dor não chega.

Quando falamos de dor crónica em cães, normalmente pensamos em medicação, suplementos, fisioterapia e adaptações em casa. Tudo isto é fundamental, claro!

Mas há um aspeto que raramente é discutido e que pode transformar completamente a forma como um cão vive com dor: a resiliência.

Num estudo recente realizado em humanos com dor crónica, os investigadores descobriram algo surpreendente: não é a intensidade da dor que mais influencia o nível de atividade física, mas sim a capacidade de manter a motivação e envolvimento/interação com o mundo apesar da dor. Pessoas mais resilientes continuam activas; pessoas com menos resiliência tendem a evitar movimento, mesmo quando têm a mesma intensidade de dor.

E isto aplica-se de forma impressionante aos cães.





dor crónica cães, resiliência



O que é resiliência?

Quando falamos de resiliência em cães, estamos a referir-nos à capacidade emocional, cognitiva e comportamental de um cão continuar a explorar e a interagir apesar de adversidades físicas ou ambientais. No caso de cães com dor crónica (por ex., artrite, displasia, doenças musculoesqueléticas), esta resiliência pode fazer diferença na sua qualidade de vida e na sua capacidade de lidar com a mesma.


Estudos recentes identificaram que a resiliência nos cães pode ser vista como um traço mensurável: a Escala Lincoln Canine Adaptability and Resilience Scale (L-CARS), desenvolvida por Mackay, Zulch e Mills (2023), mostra que esta capacidade se divide em dois componentes principais — adaptabilidade/fluidez comportamental e perseverança. Em termos simples, cães com maior resiliência são aqueles que conseguem ajustar o seu comportamento perante limitações físicas ou mudanças ambientais, mantendo a iniciativa e a vontade de participar em actividades.

Esta característica revela-se particularmente relevante no contexto da dor crónica. Um estudo publicado na Frontiers in Veterinary Science (Malkani et al., 2024) demonstrou que a dor musculoesquelética em cães não afeta apenas a mobilidade ou postura, mas tem impacto em múltiplos domínios do bem-estar, incluindo o estado emocional, a sociabilidade, a forma como interagem com o ambiente e até a capacidade de lidar com stressores e situações no seu dia a dia. Os autores também observaram que cães expostos a estímulos que induzem medo ou ansiedade tendem a envolver-se menos em actividades de enriquecimento ambiental e em interações sociais, o que pode reduzir ainda mais a sua resiliência.

Este padrão é reforçado por literatura clínica que associa a dor crónica e baixa resiliência a uma grande tendência para evitar movimentos, menor iniciativa para interações sociais e agravamento progressivo do seu bem-estar (Bowden, A. (2023)).


Torna-se claro que a dor, por si só, não explica totalmente como um cão vive a sua condição física, a forma como ele reage emocional e comportamentalmente a essa dor é igualmente crucial.

A resiliência é o que pode transformar um cão que apenas “tolera a dor” num cão que continua a ter qualidade de vida, propósito e envolvimento com o mundo.




como ajudar um cão com dor crónica



Como os tutores podem ajudar?

O controlo da dor deve ser SEMPRE supervisionado pelo Médico Veterinário Assistente e idealmente com toda uma rede de suporte (comportamental e holística).

No entanto, as interações diárias com os nossos cães podem aumentar ou diminuir a sua resiliência (capacidade de se mover, explorar, interagir mesmo com limitações ou dor).

Para te ajudar deixo cinco estratégias que podem fazer a diferença:


Providenciar pequenas explorações diárias

Em vez de passeios longos e extenuantes, são preferíveis passeios mais curtos, onde o cão possa parar para cheirar, escolher a direção e explorar ao seu próprio ritmo. O olfato é uma forma de enriquecimento cognitivo e emocional, o seu uso activa circuitos cerebrais que ajudam na adaptação e podem modular a dor e o stress (Freire et al., 2023; Horowitz, 2017).

Esta abordagem reduz o stress associado ao movimento e fortalece a autonomia e a iniciativa.


Reforçar a sua iniciativa

Quando um se cão tenta levantar, andar até à porta, apanhar um brinquedo ou simplesmente mover-se um pouco mais do que o habitual, o tutor deve reforçar esse comportamento com motivação.

O importante não é o “quanto ele fez”, mas o facto de ter tentado.

Reforçar pequenas tentativas aumenta a sua confiança.


Adaptar o ambiente

Quanto mais acessível e seguro o ambiente for, maior a probabilidade de o cão se movimentar. Pequenas alterações fazem grande diferença, como colocar tapetes antiderrapantes, rampas em vez de escadas ou taças elevadas para comer.

Um ambiente adaptado reduz frustração e evita que o cão escorregue ou que tenha movimentos bruscos, promovendo uma mobilidade mais segura. A redução destes stressores ambientais e do aumento de escolha são factores que melhoram imenso o bem-estar e o comportamento de cães com dor crónica (Malkani et al., 2024; Duncan & Lascelles, 2021).


Manter a mente activa, mesmo nos dias difíceis

Nos dias em que a dor está mais presente e o corpo não permite tanta atividade física, é essencial estimular o cérebro. Conforme mencionado além o enriquecimento cognitivo e sensorial é extremamente importante, fazer trabalho de nariz ou ensinar pequenos "truques simples" mantêm o cão motivado e emocionalmente envolvido.


Vínculo

A relação tutor-cão é, ela própria, terapêutica.

Brincadeiras e interações tranquilas, massagens e momentos relaxantes podem aumentar a percepção de segurança, além da libertação de oxitocina que ajuda a reduzir a sensação de dor. (Yamamoto, Ohtani & Ohta, 2013).

E quando essa interação vem acompanhada de uma energia calma, presença verdadeira e intenção a vossa conexão fica ainda mais forte.





controlar dor



Controlar a dor é essencial para garantir conforto, mas é a resiliência que verdadeiramente oferece qualidade de vida. Um cão resiliente mantém a motivação de participar, de procurar novos desafios, explorar e continua a viver... não apenas a existir sem dor. O objetivo não é que o cão “aguente” ou sobreviva aos seus dias. É que ele possa vivê-los com dignidade, propósito e alegria, mesmo com limitações.




“A medicina controla a dor. A tua presença, calma e confiança, constrói a resiliência. É através de ti que o cão volta a acreditar que consegue.”











Referências

  • Niederstrasser, N., Attridge, N., Slepian, P. (2024). Indirect associations of pain resilience and kinesiophobia with the relationship between physical activity and chronic pain
  • Mackay, E.L., Zulch, H., & Mills, D.S. (2023). Trait-Level Resilience in Pet Dogs — Development of the Lincoln Canine Adaptability and Resilience Scale (L-CARS). Animals
  • Malkani, R., Paramasivam, S., & Wolfensohn, S. (2024). How does chronic pain impact the lives of dogs: an investigation of factors that are associated with pain using the Animal Welfare Assessment Grid. Frontiers in Veterinary Science.
  • Bowden, A. (2023). Understanding the link between canine pain and problem behaviours. Veterinary Ireland Journal.
  • Mackay, E.L., Zulch, H. & Mills, D.S., 2023. Trait-Level Resilience in Pet Dogs: Development of the Lincoln Canine Adaptability and Resilience Scale (L-CARS). Animals.
  • Malkani, R., Paramasivam, S. & Wolfensohn, S., 2024. How does chronic pain impact the lives of dogs? An investigation of factors associated with pain using the Animal Welfare Assessment Grid. Frontiers in Veterinary Science.
  • Bowden, A., 2023. Understanding the link between canine pain and problem behaviours. Veterinary Ireland Journal.
  • Yamamoto, M., Ohtani, N. & Ohta, M., 2013. Effects of interaction with humans on postoperative pain and behaviour in dogs. Animal Welfare.
  • Horowitz, A., 2017. Smelling is believing: Brief olfactory enrichment increases exploratory behaviour and positive affect in pet dogs. Applied Animal Behaviour Science.
  • Freire, M. et al., 2023. Environmental and social enrichment modulates behaviour and stress biomarkers in dogs. Frontiers in Veterinary Science.
  • Duncan, S.L. & Lascelles, B.D.X., 2021. The impact of osteoarthritis on canine welfare. Veterinary Surgery.
  • Hellyer, P., Robertson, S., Fajt, V. et al., 2022. AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats. American Animal Hospital Association (AAHA).