A adolescência é uma fase crítica no desenvolvimento de todos os animais, sendo caracterizada por profundas mudanças hormonais, neurológicas e comportamentais.
Em cães, este período apresenta desafios comportamentais significativos, incluindo maior impulsividade, respostas de medo em determinados contextos e diminuição da capacidade de resposta a sinais previamente aprendidos. Estas mudanças comportamentais correspondem a uma remodelação neuro-biológica substancial, particularmente no córtex pré-frontal e no sistema límbico.
A fase da adolescência começa por volta dos seis meses e pode durar até aos dois anos, dependendo da raça e do tamanho do cão. Nesta fase crucial observamos um desenvolvimento físico e cognitivo, que muitas vezes se manifesta em comportamentos imprevisíveis.
É igualmente frequente os tutores observarem alguma insegurança, medo de estímulos que anteriormente não eram considerados uma ameaça, vocalizações excessivas e dificuldade em manter o foco durante as sessões de treino.
Compreender os mecanismos neuro-biológicos e comportamentais da adolescência pode levar uma melhor comunicação com o teu cão, a escolheres a melhor estratégia para gerires a sua rotina e os comportamentos indesejados que pode apresentar.

Desenvolvimento Neuro-biológico
Durante a adolescência, o desenvolvimento neurológico é caracterizado por mudanças significativas no córtex pré-frontal, estrutura cerebral que "controla" os nossos impulsos e raciocínio, e no sistema límbico, que regula as emoções e as respostas comportamentais perante uma ameaça (Casey et al., 2014).
A nível cerebral ocorre a poda neural - um processo no qual as sinapses não utilizadas são eliminadas.
Esta refinação e maturação contribuem para um aumento da sua impulsividade e da tendência de ter comportamentos que podem colocar em causa a sua saúde física (não ter noção do risco) (McGreevy & Bennett, 2010), além de afectar temporariamente a sua consistência comportamental e a capacidade de processar sinais aprendidos (Freedman et al., 1961).
Na fase da adolescência podemos também observar um aumento da plasticidade neural, o que permite uma rápida aprendizagem, mas também um aumento da sua suscetibilidade a stressores ambientais e comportamentos motivados pelo medo (Spear, 2000).
Influências Hormonais
O início da puberdade desencadeia flutuações na produção de testosterona, estrogênio e cortisol, que influenciam significativamente o estado emocional do teu cão (Beach et al., 1942).
Os níveis elevados de testosterona nos machos estão muitas vezes associados ao aumento da marcação territorial, comportamentos de monta e comportamentos agressivos entre cães. Da mesma forma as fêmeas podem apresentar durante a primeira fase do cio (estro) uma instabilidade comportamental. Nesta fase é comum os tutores observarem determinadas mudanças comportamentais repentinas, como irem de um apego excessivo com o tutor a não quererem contacto (alguma "irritabilidade") (Serpell & Jagoe, 1995).

Manifestações Comportamentais
Podemos observar as seguintes alterações:
- Maior estado de alerta:
Cães adolescentes são mais sensíveis a estímulos e contextos ambientais, consequentemente apresentam respostas indesejadas, como um ladrar mais frequente e intenso, rosnar, choramingar ou evitar determinadas aproximações (McMillan, 2017).
No entanto não nos podemos esquecer que todos estes comportamentos são uma forma de comunicação e podem ser um reflexo de um misto de curiosidade, receio e instinto de auto-preservação.
- Periodo Crítico:
Ligado ao parágrafo anterior o teu cão adolescente pode apresentar, entre os 6 e os 14 meses, Neofobia - medo do novo ou do desconhecido. Neofobia é uma “precaução instintiva” enraizada na sobrevivência de variadas espécies, na presença de objectos desconhecidos, ambientes novos ou potenciais ameaças (Barata, R. 2024).
Os níveis mais elevados de cortisol nesta fase podem contribuir para respostas emocionais e comportamentais impulsivas e exageradas na presença de situações sociais novas.
Este período em que o teu cão está mais prudente e sensível ao ambiente, requer uma abordagem mais holística, focada na compreensão deste comportamento ‘novo’ por parte do tutor tendo em conta o desenvolvimento hormonal, motivação e diferenças individuais.
*Este período é comumente chamado de “fear period”.
- Diminuição da capacidade de resposta a exercícios e sinais aprendidos:
O teu cão pode ignorar sinais ou certos exercícios previamente aprendidos devido à reestruturação neural e uma maior motivação / interesse ambiental (Hiby et al., 2004).
- Comportamento exploratório:
Tentar fugir do quintal, perseguir outros animais ou envolver-se em brincadeiras mais intensas sem noção da consequência das mesmas, à medida que testa limites sociais e ambientais são comportamentos comuns nesta fase (Bekoff, 1977).
Estratégias de Gestão e de Treino
Se pensavas que a pior fase tinha passado... pensa duas vezes!
O teu cão adolescente vai testar os teus limites, e a culpa não é dele, relembro-te que também já passaste por isso. A chave é consistência e satisfazer as suas necessidades naturais.
- Mantém a calma e sê consistente
Confrontares o teu cão só vai aumentar a frustração de ambos. Em vez disso, mantém uma postura calma e uma comunicação simples e consistente.
O uso de aversivos ou coercivos pode aumentar o seu nível de ansiedade, piorando a situação.
- Dica - Faz sessões de treino diárias e curtas para reforçar sinais básicos já aprendidos.
- Rotina estruturada de exercício físico e enriquecimento ambiental
Actividades de enriquecimento ambiental reduzem significativamente comportamentos relacionados com stress e ansiedade (Clark et al. 2019). Estas actividades devem ser adaptadas à raça e à personalidade individual do teu cão.
- Exemplos de actividades físicas - Longas caminhadas em trilhos, brincadeira social contigo e outros cães - supervisionada! - entre outros.
- Exemplos de estimulação mental - “Scent games”, ensinar um exercício novo ou puzzles, is a locais diferentes.
- Gerir o Período Crítico
Sendo um período sensível, aconselhamento profissional é recomendado. Ao 'protegeres' demasiado o teu cão e não saberes como o expor aos estímulos que ele tem receio pode ser contraproducente.
No entanto é importante frisar que não forces interações com as quais não se sinta confortável e possa piorar o seu estado interno.

O Papel da Socialização na Adolescência Canina
A socialização desempenha um papel crítico na aprendizagem social do teu cão durante a adolescência, influenciando a sua capacidade de lidar com dinâmicas diferentes, interagir adequadamente com outros cães e humanos, e lidar com stressores ambientais.
Enquanto que o período de socialização primária ocorre entre 3 e 16 semanas de idade, a adolescência representa um período sensível secundário durante o qual as suas aprendizagens sociais anteriores podem regredir (Freedman, King e Elliott, 1961). Experiências sociais insuficientes ou negativas durante esta fase podem levar ao desenvolvimento de agressividade reactiva-impulsiva, medo, ou ansiedade nestes contextos (McMillan, 2017).
Uma socialização positiva logo no início de vida não impede necessariamente uma regressão social na adolescência, sendo necessário uma exposição gradual e supervisionada a experiências sociais controladas e gratificantes para o cão ao longo desta fase de desenvolvimento (Blackwell, Twells, Seawright, & Casey, 2008). Este tipo de abordagem (e de treino) é essencial para mitigar os contratempos que podemos encontrar nesta fase e de promover a resiliência no nosso cão (Casey et al., 2014).
A adolescência é uma fase complexa que engloba importantes factores, como o desenvolvimento neural, hormonal e social. É também uma fase de grande frustração para os tutores e para o seus cães, na minha opinião, a fase que mais desafios apresenta e que vai definitivamente testar os limites da tua paciência!
Por isso é importante compreenderes a ciência por trás do comportamento adolescente e usares estratégias adequadas para consegues guiar o teu cão com confiança e o mais harmoniosamente possível :)
References
- Barata, R. (2024). Anthropology & animal training, A paradigm shift.
- Beach, F. A., et al. (1942). Hormonal influences on canine behavior. Journal of Comparative Psychology.
- Bekoff, M. (1977). Social play in canids. Animal Behavior.
- Blackwell, E. J., Twells, C., Seawright, A., & Casey, R. A. (2008). The relationship between training methods and dog behavior and welfare. Animal Welfare
- Casey, R. A., et al. (2014). Neurodevelopmental changes in adolescent dogs. Applied Animal Behaviour Science.
- Freedman, D. G., et al. (1961). Critical periods in the development of canine behavior. Science.
- Hiby, E. F., et al. (2004). The effectiveness of reward-based training in dogs. Journal of Veterinary Behavior.
- McGreevy, P., et al. (2015). Environmental enrichment and canine welfare. Journal of Veterinary Behavior.
- McMillan, F. D. (2017). Mental health and well-being in animals: The role of cognitive bias, affective state, and temperament. Journal of Veterinary Behavior,
- Serpell, J., & Jagoe, J. A. (1995). Early experience and the development of behavior. In J. Serpell (Ed.), The domestic dog: Its evolution, behaviour and interactions with people (pp. 79–102). Cambridge University Press.